domingo, 27 de janeiro de 2013

O filme é antigo (2000), mas vale a pena assistir...


AS ENTRANHAS DO MARQUÊS
(Uma singela homenagem a José Celso Martinez Corrêa, o Sade brasileiro)

Roman Lopes

Quem é o Marquês de Sade de Geoffrey Rush? Apenas uma visão cinematográfica do aristocrata francês? Ou seria o retrato exato da devassidão? O Filme Quills (Os Contos Proibidos do Marquês de Sade), dirigido por Philip Kaufman é muito mais do que a simples transcrição para o cinema do que foi a vida e a obra desse personagem polêmico e, por que não dizer, sedutor. É uma metáfora da metáfora, pois o Marquês de Sade pode ser considerado um belo retrato de Lúcifer, o anjo caído que só queria libertar a humanidade daquilo que ele chamava de “o jugo opressor de Cristo”.

O filme, sem a obrigação de ser um documentário sobre a vida do Marquês, acaba por retratá-lo com uma fidelidade tão intensa que só o universo livre da ficção permite. E nos provoca! Provoca por sua história. Provoca pelo comportamento de seus personagens (todos eles, até os considerados normais). Provoca por mexer com os nossos mais íntimos e reprimidos desejos. Provoca, enfim, por jogar na nossa cara o quanto a nossa vidinha cômoda e segura de respeitáveis cristãos é uma grande farsa, pois basta que alguém nos incomode um pouco para liberar toda a energia perversa que existe em cada um de nós.

O panteão de signos do filme é tão rico e intrincado que parece pouco provável a possibilidade de interpretação isolada de cada um deles. Uma análise conjunta, transgressora e alquímica desses signos é, talvez, a opção mais fiel aos próprios ideais do personagem principal dessa saga libertadora que é a própria história do Marquês.

A prisão em que o Marquês é colocado no filme (singelamente chamada de asilo), que pode muito bem ser o Hospício de Charenton onde o verdadeiro Marquês viveu na velhice, como também pode ser a prisão da Bastilha, onde o Marquês foi várias vezes encarcerado, é o microcosmo da própria sociedade. As instituições de controle social estão muito bem representadas nos personagens do padre Coulmier (um surpreendente Joaquin Phoenix), que é a própria personificação da Igreja, com todas as suas contradições e o Royer-Collard de Michael Caine, um misto de médico e juiz, representante da Ciência e do Estado, pois ele vai ao asilo cuidar de Sade a mando de Napoleão.

Logo no início, o filme mostra uma guilhotina em funcionamento. Símbolo máximo da Revolução Francesa, ela já dá ao espectador a ideia de que o universo que se constrói a seguir é violento, repressor e que uma figura como Sade (um Marquês, ou seja, um nobre) tem que se comportar bem, pois o destino daqueles que vão contra o sistema é um rito sumário (o verdadeiro Sade escapou da guilhotina algumas vezes).

Tudo o que o Marquês quer em sua prisão é escrever. O que no início é visto com bons olhos pelo padre Coulmier, que acredita no poder purificador da catarse literária, acaba por se tornar o foco do maior conflito do filme, pois os escritos do Marquês, através da devassidão e da promiscuidade, acabam por se tornarem o maior libelo contra a opressão social e um manifesto da liberdade. Por isso, eles começaram a incomodar. E começaram a ser proibidos. Sade não parou. Com o auxílio da lavadeira Madeleine (a belíssima Kate Winslet que, diga-se de passagem, não lembra em nada a insossa personagem de Titanic), o Marquês continua a escrever e publicar clandestinamente os seus escritos... Pausa dramática para a análise de um signo... Madeleine leva as folhas de papel para o Marquês e recolhe os escritos escondidos em um cesto de roupa suja. Podemos dizer que o polêmico escritor quer lavar a roupa suja da humanidade, libertando os desejos de todos. Não é à toa que seus escritos fazem um sucesso estrondoso. Madeleine só poderia ser uma lavadeira... Segue o roteiro... O padre Coulmier, apesar da benevolência e da caridade típicas do cristianismo (apontadas por Nietzsche como um mal. Aliás, Nietzsche também escreveu sobre o Marquês de Sade), começa a lutar contra os escritos profanos da Sade, utilizando como arma o esvaziamento dos sistemas de comunicação e o isolamento (armas típicas da Igreja). Os instrumentos necessários ao ato de escrever começam a ser negados aos Marquês. Ele não se intimida. Anarquista compulsivo, o Marquês se utiliza de tudo o que está ao seu alcance para continuar sua jornada. Lençóis e vinho (a orgia dionisíaca?), as paredes de sua cela e os excrementos (as pinturas rupestres?), o sangue e seu próprio corpo. É um retorno gradativo aos sistemas de comunicação mais primitivos. Uma volta às origens animais da humanidade, tempo em que os seres humanos viviam mais livres. O desenvolvimento das civilizações valeu a pena? Quando não há mais onde escrever, retorna-se ao sistema de comunicação essencial. O Marquês conta para Madeleine, na calada da noite, histórias fantásticas. Os outros internos do asilo também ouvem essas histórias através dos orifícios das paredes (mais uma vez as cavernas?). O resultado não poderia ser outro. O mundo social se despedaça. O asilo é atacado pela tempestade e pelo incêndio. O homem retorna ao seu estado original, dançando em volta do fogo. A jovem Madeleine morre, libertando-se de sua miserável existência pelas mãos de um louco livre (puro pleonasmo).

A Igreja é ineficaz na tentativa de reprimir a transgressão sádica. O jovem padre Coulmier acaba carregando a culpa pela morte de Madeleine, culpa essa que é muito mais forte pelo amor profano que o padre sentia pela jovem lavadeira. Numa viagem contrária àquela feita por Dante, o padre sai do Paraíso confortável de sua posição clerical, passa pelo Purgatório e pelo Inferno do desejo e encontra esse amor em meio às chamas e ao caos, consumando seu desejo por Beatriz-Madeleine numa cena de necrofilia típica de Sade. O Marquês venceu. É a Divina Comédia. Seria cômico se não fosse trágico.

Quando a Igreja começa a falhar, o Estado intervém. Entra em cena o médico-juiz de Michael Caine. Os métodos repressivos são típicos de uma Ciência ainda pretensiosa e arrogante. O uso da água como instrumento curativo (um novo batismo, já que a Igreja não responde mais às questões consideradas importantes?), a ameaça, a tortura. Nada disso adianta. A Ciência e o Estado também sucumbem ao poder avassalador do discurso libertário do Marquês, não impedindo que o incêndio acontecesse. A destruição do asilo é a própria desagregação da sociedade. Os reflexos são sentidos em todas as instâncias da vida social. A família não existe mais. A esposa do médico adora os escritos do Marquês. O mundo vira uma taberna onde todos lêem as histórias de Sade, regados pelo sexo e pela alegria.

Muita coisa ainda poderia ser dita. A água e o fogo, que representam a geração da vida e a destruição. Paradoxo elementar. A tempestade. Seria o castigo divino? Sodoma e Gomorra revisitadas? O luxo da casa da jovem esposa como representante da falsa sensação de realização da vida social, em contraste com a realização verdadeira com o amante, realização às escondidas, tão proibida quanto o manifesto que a motivou.

Desrespeitando a ordem cronológica do próprio filme e o espaço permitido para a análise.. Transgredindo a ótica que o senso comum traz do protagonista e a proposição de análise isolada dos signos. Talvez essa seja a única forma possível de aproximar as pessoas do real universo polêmico e libertador do Marquês de Sade... Evoé Baco!

Abaixo o vídeo com o trailer do filme


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