domingo, 27 de janeiro de 2013

Um pouco de Literatura...


Dis(ser)tando

Vago sem estar. O tom suplicante dos anúncios, das pessoas, das trivialidades rotineiras. Observo entorpecida a isso. Anestesiada, meramente executo. Mecanicamente me movo, geometricamente curso os mesmos caminhos. Mais um animal insensível. Despersonalizada, não enxergo reflexo algum no espelho bambo no qual me apóio. Onde fiquei e onde estive? Meu quarto, meu quarto não é mais meu. Encaro a formiga escalando a cômoda sem emoção alguma. Encaro as paredes beges com suas rachaduras e marcas de fita adesiva arrancada. As notas coladas. As fotos. Os bichos de pelúcia. As roupas, os sapatos, os esmaltes, a caixa de música, os perfumes, o criado mudo. Tudo que me pertence e não sou eu. Viro de costas e encaro minha família. Não há identificação. As lembranças passam. Elas passam com o mesmo interesse que tem o metrô ou ônibus a uma pessoa que não quer ir a lugar algum… Minha família não é mais minha e sim da conhecida que se faz presente nas memórias.
Desnudo-me. Encosto o queixo no colo e sinto o cheiro denso que emana do corpo, os seios pequenos de aréolas cheias e tudo aquilo que é quente. A conjunção de membros que me obedecem e não são eu. O que sei de mim? Sei apenas o que não sou, sei que não sou o outro, sou eu. A noção de ser individual me permeia, será verdadeira? Rascunho essa palavra ‘eu’ que é tantos e simultaneamente, se faz cruelmente impessoal. Ela também não sou eu, apesar de eu me usar dela para nomear-me. Ouço o nome que me foi dado nas bocas alheias, agradeço a Julieta por ter um dia manifestado a frase: ‘O que é um nome?’. É, nele também não há sinal de mim.
Penso em meus desejos, devem todos vir de algum lugar, algum centro de gravidade que coordena todo o resto, porém, esse sou eu? Eu sou um centro de gravidade qualquer que distribui frações chamadas atitudes, apenas buscando prazeres? Não, não pode ser, não posso ser. Meus hábitos, meus segredos, meus favoritos, seriam esses eu? Não nego que todos eles possuem parte de mim, ser me serem por inteira. Meus amigos também, uma mescla de uma intenção de eu com algo de outro embutido? Seria o eu possível de ser fracionado assim? Assim, facilmente destilado com esse excesso de pronomes possessivos arrogantes? Meu, minha, meus, minhas. Seriam esses, acompanhados de seus respectivos substantivos o lar meu e de todos os outros? Não creio. Se eu disser que sou o certo ou errado, então eu sou a ética? Se eu disser que sou atitudes, então sou o meio? Porém, se assim fosse, seríamos todos iguais, não?
Considerei a hipótese de ser o que crio. Tocando o que criei, encontro pistas do que pode ser um ‘eu’ meu, mas sem a ideia de que aquela matéria construída, mesmo que unida, constitua um ser. São do mundo as criações, pois a partir do momento que deixam de ser diluídas no interior do líquido íntimo e tomam textura própria, deixam de ser (de) alguém. Um líquido, um elixir que derrama o que chamamos de vida? Uma alma? Uma energia pulsante que sopra e logra a gravidade? Um nó de corda que se expande para todos os lados formando mil e uma ligações? Um número? Uma cor brilhante? Um sentido? Um conjunto de comoções tão previsíveis como a bola que ao ser jogada no chão, é esperada de volta, com um quicar? Um paradoxo? O próprio agora? Um pedaço de espaço? Um milésimo de história? Uma ilusão?
                                               Um!?
Bianca Nuche (???)

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