terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A mesma gota de poesia... Repetida...


NEO-PLATÔNICO II

A figura linda do meu caminho encontrou o seu par.
O mesmo semblante sereno, a mesma doçura no olhar.
A mesma pele de prata, brilho da luz do luar.
A beleza misteriosa das profundas águas do mar.
O vôo dos pássaros ganha novas cores,
A delicadeza da seda veste a segunda fantasia.
A beleza enigmática da noite fica completa
Com o esplendor explosivo do dia.
A brancura fantástica da neve cresce tanto
Que o meu coração é invadido por uma avalanche de magia.
Meu jardim ganha novas flores
E os perfumes que eu saboreava com tanta alegria,
Ganham novas nuances tão preciosas,
Que minha vida transborda em pura harmonia.
Mais um mergulho, mais uma entrega,
Arrisco-me a morrer novamente
E encontrar, mais uma vez, a redentora paixão.
Talvez a permissão ainda não exista,
Talvez a proibição persista,
A correspondência tão sonhada pode ainda ser ilusão.
Mas a vasta visão da Verdade,
Que transformava a minha existência
Em um carrossel de felicidade,
Ganhou uma dimensão tão pura, tão plena,
Que o meu coração, antes repleto de amor,
Esvaziou-se de qualquer possibilidade de dor
E explodiu em uma infinidade de diamantes,
Fazendo com que a maravilha que eu vivo agora,
Apague qualquer vestígio do que eu considerava vida antes.
Amo de novo, amo mais, amo sem medo,
Vivo a plenitude simples do amor
E a princesa que estava no meu caminho
É agora o plural de uma mágica realidade.

Roman Lopes

Devaneios coloridos obscuros

Gradiente

Provei da lágrima e me assustei com seu sabor franco. A fonte da salmoura em questão é que assombrava. Justamente aquela senhora? Vi sua máscara usualmente desenhada por um sorrir bondoso e aros grossos envolvendo os olhos escorrer e deformar como tinta molhada perante o lar perplexo. Esse, só era capaz de atribuir tal fuga de ritmo à inconstância que a amargura do conhaque trazia aos ébrios.
O ronco de sua garganta entre soluços e papéis encharcados que cobriam suas verdades alarmava o ar da casa, acostumado a conversas casuais dietéticas e insossas. A mulher, a criança, a idosa, todas as facetas daquela mãe se contorciam no resguardar de seus próprios segredos: condenáveis, inaceitáveis  e carrascos de suas noites insones.
A expiração violenta das narinas e o tom hermético de suas negações traziam a certeza do peso dos julgamentos do mundo dos quais sua mente já havia se apropriado. A flor violeta maculada pelos inimagináveis pecados que acreditava mancharem-na deixava de florescer e empalidecia no lilás com branco molhado no qual divagava.
O silêncio tomou a residência e as pessoas foram aos poucos a abandonando, deixando-a só. Uma pipa serpenteava pelo céu pincelado nostalgicamente naquele entardecer. O vento agradava sua cauda submersa naquela corrente que a satisfazia. O sol vermelho tornava-se menos ardido dando espaço para seus tons mais suaves. A senhora alisava o retrato bonito como se seus dedos vencessem a distância e em um átimo ela pudesse ser o estar daquela viajante celeste.
A grossura da corda que a enforcava atenuava-se, pois sua pupila, não mais refletora de um espelho, porém do céu, ninava seus medos em uma cantiga adocicada sussurrada pelo vento. O vislumbre do instante inspirava e tornava ínfimos seus caprichos e dores. Aquietava-se para enxergar o mundo escurecer e no infinito seus segredos não se faziam mais tão obscuros, as lágrimas os curavam assim como a miríade de estrelas curava a solidão celeste.
Deitou. Dormiu e sonhou com uma tela varrida pelo vento. Branca.

Bianca Nuche

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Uma aventura audiovisual

A primeira produção audiovisual da Trupe Reticências, Concerto de Vozes Dissonantes teve sua primeira exibição em setembro de 2012, na 2ª edição da Olimpíada Paulista de Filosofia, no campus São Bernardo da UFABC. Em seguida, outra exibição em novembro de 2012, no Teatro Nélson Rodrigues, em Guarulhos.
Agora ele está à disposição de todos que quiserem apreciar essa nossa aventura audiovisual.

Segundo as palavras de André Okuma, cineasta responsável pela fotografia do filme:

"Concerto de Vozes Dissonantes é uma ode ao vazio. Uma ode de estrofes visuais que nos inserem no seu ritmo sincopado, triste e cínico do mal estar contemporâneo, onde seu canto é mais uma tosse engasgada e seca, que entoa a dor de existir em face ao niilismo de seus arquétipos pós-modernos, que perambulam pelos escombros dos não-lugares de um mundo pós-ísmos, cheios de números, certezas e mediocridade.
A busca desesperada por um vago sentimento de conforto, pelo prolixo caminho que parte da ressaca moral do pós-guerra até a superficialidade do século XXI. Mãe Sem Filho procura Filho Sem Mãe, numa odisseia melancólica pelo discurso vazio do poder, da razão e da iminente falta de perspectiva em que somos encurralados neste contexto.
Concerto de Vozes Dissonantes é a volta desapontada para a escuridão da caverna."

Ficha técnica:

CONCERTO DE VOZES DISSONANTES

Escrito e dirigido por ROMAN LOPES
Fotografia de ANDRÉ OKUMA

Músicas
HIGH HOPES - Gilmour / Samson
WHAT DO YOU WANT FROM ME  - Gilmour / Wright / Samson
THE FINAL CUT - Roger Waters
Todas elas são executadas pela banda Pink Floyd

Elenco:
BIANCA NUCHE
CAROLINA ORELLANA
FRANKLIN JONES
JÉSSICA LEANDRO

Participações especiais:
CARLOS MORALES
DANILO RODRIGUES
MARCELO GOTARY
PATRÍCIA RODRIGUES
RAUL CARVALHO







sábado, 16 de fevereiro de 2013

Mais uma gota de poesia...


NEO-PLATÔNICO I 

Vivia no vazio, via o vácuo à minha volta.
Dentro de mim o abismo profundo.
Tristeza?... Não... Nada...
O Nada absoluto.
A vida reduzida a uma insignificante existência,
Limitada pelo cotidiano raso e incolor.
Os dias passavam todos iguais
E as horas numa desanimadora semelhança.
O meu coração sempre no mesmo ritmo,
Uniforme, sem graça...
Então veio ela, a princesa.
A criança com sua energia renovadora,
A moça com sua pureza maravilhosa,
A mulher com sua sensualidade natural,
A beleza em sua manifestação plena.
O cotidiano incolor transformou-se
Em um arco-íris de flores perfumadas
E a existência rasa em um oceano abissal
Onde meu coração navega no ritmo das tempestades
E do gosto suave da brisa matinal.
Mergulho nesse oceano sem medo,
Para ver o vôo dos pássaros e a brancura da neve.
Entrego-me à paixão arrebatadora
Para morrer à bala e renascer
No colo da fantasia redentora.
Alimento-me de olhares, sorrisos e abraços.
Sacio a minha sede de magia e maravilha.
Fico mais próximo da plenitude.
Amo sem medo.
O amor proibido ou não correspondido,
A dolorosa paixão e a doce ilusão.
Amo simplesmente.
E o vácuo vazio da minha vida
Virou a vasta visão da Verdade,
O turbilhão tempestuoso de todos,
Os amores e paixões humanas
Personificados na figura mais linda
Que cruzou o meu caminho.

Roman Lopes

Puro devaneio...


Conversa entre amigos!? 

D: Nós somos amigos? 
R: Quê? 
D: Perguntei se somos amigos... 
R: Eu não sou nada... 
D: Eu também não sou... 
R: Nada? 
D: Alguma coisa... 
R: Que coisa? 
D: Nenhuma delas... 
R: Então talvez seja nada... 
D: É talvez… 
R: Talvez o quê? 
D: Talvez sejamos nada... 
R: Então não somos amigos? 
D: Hã? 
R: Nós somos amigos? 
D: Defina nós... 
R: Eu, algo, você… 
D: Porque há algo entre nós? 
R: Não sei, você é quem perguntou, quem o fez aparecer.... 
D: Quem? 
R: Você! 
D: Pensei que fosse o algo... 
R: Ele também! 
D: O quê? 
R: Apareceu! 
D: Por quê? 
R: Para que fôssemos… alguma coisa. 
D: Que coisa? 
R: A coisa do algo do meio do nada. 
D: Não entendi, afinal, que coisa é essa? 
R: Isso é você quem vai responder. 
D: Mas não sei a resposta, só a pergunta. 
R: Como? 
D: Eu só entendi a pergunta! 
R: Então responda o que entendeu. 
D: O quê? 
R: O que você entendeu! 
D: Mas eu não entendi nada. 
R: Então nada! 
D: Nada não, tenho uma pergunta. 
R: Qual? 
D: Nós somos amigos? 
...

Bianca Nuche

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Mais um pequeno devaneio...


O tempo

Parado e preso, me vejo a assistir ao tempo. Imerso estou em meio a pensamentos, sozinho, me sinto vazio.

Controle fingido que não me deixa viver. Desordenado sigo, sem sentido. Uma vítima invisível, um vulto que busca inutilmente existir.

Destino cruel, que devo aceitar. Os ponteiros caminham sem reclamar, tento controlar o tempo, mas ele não parece mudar. 

A agonia me domina, não sei o que esperar. O mundo que me cria, quer me abandonar.

As lágrimas correm meu rosto, quentes e suaves, se entregam sem medo.

Tento deixar o medo, mas estou preso. Os ponteiros me prendem, sou escravo do tempo, escravo das horas.

Fecho os olhos. Desisto de lutar. Mundo ingrato que me fez chorar.

Não sou mais quem eu fui. Há pouco não sabia quem era, mas aquele se perdeu de mim.

O tempo não existe mais.


Jéssica Leandro

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Mais devaneios literários...


Imagem e Pulso

A areia movediça. Impulso de enfiar os pés e penetrá-la. Sentir-lhe subindo minhas pernas quando sei que sou eu que desço a sua superfície. Imergir... Deixando-a lamber vagarosamente.
Tornar-me submersa em sua textura molhada, quente. Sem luta, aderir à vontade do corpo estranho meu. Crescer nos olhos as imagens finas, finais, diante do afundamento.
Meus pulsos traçados por delicadas linhas azuladas e arroxeadas. As linhas se exteriorizam e expandem marcando-me com traços profundos. Os traços se encontram e perdem, crianças brincam por minha pele e a fantasiam.
No espaço, o som rítmico. Pedrinhas. Como cascalhos caem, constante corrente. Não há pilha, elas retornam pelo mesmo fluxo de origem. As pedras derramadas são as mesmas que retornam. No mesmo instante. Sempre as mesmas, sempre novas. Continuamente, continuamente...
Estico o pescoço. Enxergo o céu azul concentrado fendado em amarelo juba-de-leão. O céu lápis-lázuli. Os choques entre as cores são delineados pela sombra de um preto arranhado.
Levanto meus dedos azuis e acaricio o amarelo macio e reluzente. É como se todo o corpo, tudo que o toca e tudo que toca tudo se regozijassem em satisfação. O mundo se acaricia e se contenta. O amarelo centeio disperso na luz azul molhada. Minha palma se camufla ao líquido e bóia em seu ventre.
A tranquilidade de algo que parece inevitável. A imersão no fim. O fim se torna amarelo puro e escurecido, um tom mais claro que o marrom cabo de pêra. Violento em sua imposição e tão deliciosamente calmo. Tão desejável e de calor úmido. Penetro e sou penetrada pela areia.
Um vislumbre intensificado. Sons. O cupim que rói a madeira. A garoa fraca. As raízes que absorvem. As folhas que farfalham. Os batimentos. A penetração. Todos são regidos pelo único som audível. As pedras não são mais vistas, o ar esfumaçado em branco cobriu o espaço. Não se sabe se é noite ou dia. O ar frio invade os orifícios que ainda não foram tomados. Os cílios superiores cumprimentam os inferiores e deitam-se em abraço final. A quentura sobe e envolve a face. Não há mais som. As ondas inaudíveis fervem a corrente sanguínea. A energia do mergulho se expande e retrai repetidamente até que fique insuportável. Água e areia colidem.
E o todo se desfaz, agora.

Bianca Nuche

Uma gota de poesia...


Poesia Quadrada
(uma maneira libertária de mostrar como estamos presos a uma forma).

Os gritos roucos invadem o luar como lobos famintos e sedentos.
Os gemidos nos rostos colados, denunciando o prazer dos amantes,
Apresentando aos visitantes as maravilhas do Jardim do Éden,
Onde todos comem a maçã sem castigo.

Os corpos entrelaçados, macios, em delicados movimentos,
Tremendo ao ritmo frenético e louco de amores dançantes.
As bocas e mãos que percorrem e medem
A dimensão do percurso que leva ao suntuoso abrigo.

A luz dos olhares que se cruzam leves e sonolentos
Deixando para depois os sonhos que tivemos antes,
Cantando canções de ninar que pedem,
Para que você fique sempre comigo.

Amor... Amor...
Dor... Dor...
Sofrimento... Prazer...
Tormento... Não há mais nada a fazer...

Ficamos surdos aos gemidos e aos gritos roucos,
Saímos do ritmo desses movimentos loucos,
A luz dos olhares se apagou com o fim da canção
Despertando nossos amores do sono doce da ilusão.

Dor... Dor...
Amor... Amor...
Lutar... Viver...
Matar... Morrer...

De que vale a vida, a comida e a bebida,
Se o verdadeiro alimento está na ferida
Aberta pelo tormento da alegria perdida?

Venha... Não saia do meu caminho...
Fique... Nunca me deixe sozinho...
Podemos estar surdos, mas para os gritos ainda temos voz,
Aprender a dançar de novo só depende de nós
E, quanto à luz do olhar,
Basta pagar a conta, que eles voltam a ligar.

Roman Lopes

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Pequenos devaneios...

O despertar

Sangue… uma gota de sangue emerge à superfície e serpenteia pelas bochechas alvas até finalmente suicidar-se no limite do queixo. E outra e mais outra e mais outra…
Ela finalmente volta à realidade ao ver o brilho rubi borrar sua visão. Levanta lentamente sua mão trêmula para encostar no líquido vermelho e constatar seu estado de espírito.
Mais uma vez ela ergue os olhos negros - tão intensos, tão cheios de mistérios - e descobre o mundo à sua volta.Céu cinza, árvores retorcidas, grama verde e dois balanços, um ocupado por ela e o outro vazio. O lugar era conhecido, não na memória, mas no coração.
Mas será ele passado? Ou será futuro? O presente não é com certeza, seu presente era vazio. Mas o presente é o que está acontecendo, então seria este o presente, e o vazio passado? Ou seria tudo isso uma visão do futuro no presente? Ou melhor, passado? Ela suspirou compreendendo finalmente: o tempo não existe.
Fitou o balanço ao seu lado, seu coração dizendo que nem sempre esteve vazio. Um dia ela teve companhia, ela sempre a teria. Um ritmo energético dominou o lento compassar de seu coração, e suas asas há muito mortas, renasceram. Rasgando sua carne e se esticando em suas costas. Asas negras que contrastavam com a brancura de sua pele. Ressaltando sua beleza sombria.
-Onde ele está?
E a vida lhe pediu paciência. Assim como ela, ele deveria reaver suas asas, seu coração. Ela tomou um impulso e começou a balançar.
-Tudo bem! Eu espero ele chegar.

Carolina Orellana

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Mais um pouco de literatura!


Caça ao desconhecido conhecido.
      
     O centauro sozinho. Menos um no rebanho. A procura, a necessidade da busca incessante por… alguma coisa. O quê? O quê? Mãos tremendo, arco hesitante, a dúvida corrói, complica, destrói. Laços ainda ligam ao rebanho, o que eles querem? E isso importa? Eles já se foram, ficaram em todo lugar e nenhum.
      A flecha é puxada, a pressão, a corda vibra, músculos flexionados. 360º. 360º. 360º. O giro do infinito, da contagem, da confusão. O embaçamento da visão. Tudo se solta e ela dispara rumo ao céu. O alívio, a paz impera por um instante, mas a consciência, ela sabe, tudo volta, ela volta. 
      A angústia, a corrida sem rumo, o espaço limitado, o medo de se tornar seu próprio alvo, o medo da dor. O desejo da apatia, a exaustão do medo. Borrões coloridos. Ninguém se importa, poucos entendem. O desejo de girar pra sempre. O desejo secreto de que alguém o pare. Só mais um pião rodando no liquidificador. Enjôo.
     Tem de fazer isso sozinho. Lembranças claras, escuras, nada disso existe mais. A ameaça do inimigo invisível continua ao redor. O inimigo cai morto e retorcido, ao lado. Golpe de sorte, acaso ou destino? Seja o que for ele recolhe aquele pedaço de si mesmo que já clama por ter novamente objetivo, mesmo que esse seja vazio. A unidade acalma, inquieta, contradiz. 
     O espaço se aclara e os borrões se tornam retas, curvas. As cores perdem a intensidade. Suspiro. O ciclo vai se repetir? Busca incessante… desejo por confiança, a dúvida corrói. O instinto animal somado ao desejo de entendimento, as expectativas temperam a escolha e tudo se junta, se confunde, treme.
     Orifícios absorvem o veneno dos sussurros quase ignorados. O veneno paralisante. A perda de energia. Mas ele não vai parar, estica os braços procurando por… alguém? Não, não. Ninguém do rebanho vai satisfazer a procura. Já havia tentado isso. Já o haviam tentado, cicatrizes provavam. A carne dura, fria e deformada gritava o mesmo.
     Tudo perdia o sentido, o centro, ONDE? O onde que corria as veias, as falhas, as patas, o onde dos calafrios. O onde que como as marés destruía o castelo de areia que tinha de ser reconstruído de novo e de novo. O onde do pânico, da ruptura. Difícil respirar. O arco da obrigação, que leva para longe o objetivo. Largado e pisoteado por merecimento.
     Resta a flecha, a pergunta, o movimento da cabeça para não perder a consciência. Os borrões querem voltar, chantageiam, ameaçam. Uma luz ocorre, talvez não a melhor, certa, porém a última, finalmente a última. Perfura o peito, a prisão, as entranhas, o medo, o coração, a segurança , a confusão, perfura até mesmo a própria dor de não ser. A consciência vaga e se perde.  
     A morte pela mudança. Tudo jorra, escorre sem controle e colore o ambiente. Um novo ser nasce, sem arco, sem flecha, sem consciência, nasce o fenômeno de si mesmo.

Bianca Nuche

Apenas mais uma reflexão - parte 2


DIFUSA IDENTIDADE – DIFUSÃO DE AUTORIDADE

Roman Lopes

RG: 12.246.369-X, CPF: 123.456:789-10, PIS, CNH, Título de eleitor, Zona... Zona? Realmente, é uma bagunça... Somos todos siglas e números. Somos fotografias 3X4 congeladas ao lado da impressão digital. Falso sorriso diante da máquina. É dessa maneira que somos identificados na nossa nação. Essa é a nossa identidade. Aquela que pode ser falsificada. A falsidade ao quadrado. Potência da hipocrisia. A identidade com segunda e terceira via. Terceira via... Isso é conversa de estadista popularesco e indecente. Mas nós caímos nessa conversa... E vamos correndo tirar passaporte... A identidade internacional... Vamos, loucos, conhecer a terceira via em outras nações. E depois as copiamos, ampliando a falsidade da nossa nação.

Como é possível falar em identidade nacional em um país que não é nação? Historicamente, o Brasil o um país que não tem a menor preocupação em construir uma identidade própria. É mais fácil importar. Mais fácil, mais econômico e mais vantajoso... Para quem? Para aqueles que comandam a nação, os mesmos que são comandados por outras nações... Hierarquia da falsa identidade... História da Carochinha... E o boi, agora, é da cara preta.

Os povos que viviam aqui nesse território tinham uma Identidade própria. Vieram os europeus, que também tinham sua Identidade, e destruíram esses povos. Trouxeram os povos africanos para cá. Esses povos também tinham sua identidade. Mas ela ficou na África, foi proibida de embarcar. Perda da identidade. Viagem sem volta. Nessa luta, a própria identidade dos dominadores foi destruída, pelo sol que não respeita a frieza europeia e pela grande extensão territorial, que cansa muito aquele que está acostumado a atravessar seu país de trem, em poucas horas. Todos esses povos se cruzaram, metaforicamente e literalmente. Tiveram filhos. Esses filhos são cidadãos brasileiros.

Vieram vários imigrantes, cada qual com sua identidade. Isso aumentou ainda mais a confusão. Eles vieram atraídos pelo sol, ocuparam a grande extensão territorial e aproveitaram a abundância de coisas aqui oferecidas, pela natureza e pela gentileza submissa. Todos tiveram filhos, que também são cidadãos brasileiros.

Nesse Brasil existem ruivos de olhos puxados, mulatos de olhos verdes e branquelos com nariz de batata. Isso não fica bonito na foto, mas temos que nos identificar. E tome maquiagem (Catherine Hill, Payot), cabeleireiro (escova japonesa, sueca, com hidratação marciana) e banho de loja (calça jeans da Khelf fabricada pela Alpargatas)! Os olhos azuis são lentes de contato (não imediato, porque demora a pagar). Os cabelos lisos somem com a água e o cirurgião plástico fica rico.

O quadro da identidade brasileira é abstrato. Um filme de terror. O pintor é europeu e a produtora é de Hollywood. Nós, espectadores, acreditamos que tudo isso é verdade. Para que essa crença se fortaleça e nós não pensemos no assunto, vale usar qualquer arma. O quadro, o filme... Inclusive a língua... Qual língua? A que está no céu da boca ou a que está no inferno dos livros didáticos?... As duas... Exercícios de dicção... Somos todos stanisiavskianos... Vivemos com condicionais mágicas e perdemos o foco de atenção... Estudamos o nosso idioma e aprendemos outro... Gil Vicente na literatura brasileira... E o machado é inglês...

No Pelourinho, o Olodum canta com Michael Jackson. O evento é transmitido, via satélite, para duzentos e tantos países, pela Globo Internacional (redundância geográfica, midiática). O astro aprende o Português e diz: - Obrigado! A plateia, emocionada e brasileira, responde: - Thank you! Inversão politicamente correta, em todos os sentidos. Araxá e Manhuaçu ficam perto do Capitólio e da Galiléia!

A língua, quando sai do céu da boca, ganha o espaço com as palavras. Sanduíche com suco de graviola. Guaraná com Big Mac. Nós assistimos a filmes nacionais na HBO e conjugamos os verbos da legenda. Eu jogo, você joga, nós joga, eles joga (qualquer semelhança com a conjugação do verbo to play não é mera coincidência!). Vamos dormir contentes, para sermos acordados no dia seguinte pelo ringtone do nosso smartphone. Mas a voz é da Cláudia Leite. Of course!

Apenas mais uma reflexão!


BRAZILIAN LAND – UMA TRADUÇÃO CONTEMPORÂNEA DA TERRA BRASILIS
A MAIOR PIADA DO PORTUGUÊS

Roman Lopes

... Dos filhos deste sol és Mãe gentil,
Pátria amada, Brasil...”

De quem somos filhos? Dos milhões de índios (denominação típica do dominador) exterminados? Dos poucos remanescentes? Somos filhos do invasor fugitivo, desesperado pela própria condição de perda e que quis transferir essa condição para essas terras, juntamente com suas ambições? Somos filhos dos negros mercadorias, arrancados à força de suas próprias existências para uma vida de zumbi (com todas as letras minúsculas)?

O Brasil é um país que já nasceu globalizado. Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz... Quem é essa Vera? É santa? E a cruz? Os habitantes autóctones dessas terras descobriram logo. É a cruz do martírio de um homem desconhecido, que transferiu para eles um martírio ainda maior, transformando Tupã em um velho de barba branca, sentado em um trono invisível, a rir de suas pajelanças e de suas cores corporais dançantes.

Brasil... A brasa da madeira, a brasa que mora (trocadilho Velha Guarda) na essência dessa terra e que para os invasores tinha apenas o valor amarelo do ouro, apesar da madeira ser vermelha. É a contradição invasiva das cores. Imperialismo cromático no reino primário.

Essa nação foi invadida. Os invasores foram invadidos. Os invasores dos invasores foram invadidos pelos invasores anteriores. Novos invasores vieram. Invasores forçados vieram escravizados. Os autóctones já não conseguem entender mais nada. Será que eles também são invasores? A resposta é clara: esqueçam a caça e o rio! Olhem no nosso espelho e vejam o brilho santo da civilização! O rio virou Rio, de Janeiro, de fevereiro, de março. O calendário do invasor, que desrespeita o Sol e despreza a Lua, transformando-a em uma bola de queijo... Aliás, o que é queijo mesmo? Um produto das Minas de ouro. Feito com leite de vacas holandesas. Até as vacas invadiram essa terra!
A invasão foi tão intensa que não teve outro remédio. Os invasores sentaram à mesa e fizeram tratados. As Tordesilhas, a independência, a abolição, a redemocratização, o assento permanente no Conselho de Segurança. A Copa do Mundo é nossa! Viva 2014! Seremos novamente invadidos. Só que agora estamos de acordo.

O que restou aos habitantes desse país? Continuar aceitando as invasões. As estrelas loiras que não envelhecem e não param de dançar. O ouro verde que colocou no nosso verde os rostos dos presidentes norte-americanos. A devastação amazônica da nossa Mata Atlântica, transformada na metrópole do santo invasor. O esporte nacional é inglês!

Somos obrigados a estudar Línguas Estrangeiras Modernas, para sonharmos com o tradicionalismo de Harvard e de Cambridge. Contradição acadêmica. O moderno repousa nas poeiras antigas daquilo que é consagrado. E seguimos estudando, para ganhar em dólares e comprar os automóveis fabricados aqui pelos invasores, graças à mão de obra que vale pouco mais de quinhentos reais (dinheiro irreal). É a invasão automobilística.

Estamos na era das redes virtuais e o teclado do meu computador está todo escrito em inglês. CAPS LOCK.... Enter... E agora?... Será que eu quero Print Screen? Eu preciso estudar Língua Estrangeira Moderna. Vou para Harvard jogar futebol. Ou para Cambridge defender uma tese sobre a relação do samba e do rock. O meu estudo de caso será o Michael Jackson. Mas antes de embarcar eu vou a uma lanchonete comer um cheeseburger, a vaca holandesa com a fatia de queijo nas costas. Invasão ao quadrado. Mais uma vez o vermelho se junta ao amarelo. Só que agora sem madeira (o M é outro), pois ela já se transformou no verde dos rostos presidenciais.

A única identidade que o brasileiro perde é aquela que dá para tirar a segunda via. Ele nunca teve outra. Estamos há quinhentos anos deitados eternamente em berço esplêndido...

O Manuel da padaria está rindo de nós até hoje! E olha que ele é que é o burro!