domingo, 3 de fevereiro de 2013

Apenas mais uma reflexão - parte 2


DIFUSA IDENTIDADE – DIFUSÃO DE AUTORIDADE

Roman Lopes

RG: 12.246.369-X, CPF: 123.456:789-10, PIS, CNH, Título de eleitor, Zona... Zona? Realmente, é uma bagunça... Somos todos siglas e números. Somos fotografias 3X4 congeladas ao lado da impressão digital. Falso sorriso diante da máquina. É dessa maneira que somos identificados na nossa nação. Essa é a nossa identidade. Aquela que pode ser falsificada. A falsidade ao quadrado. Potência da hipocrisia. A identidade com segunda e terceira via. Terceira via... Isso é conversa de estadista popularesco e indecente. Mas nós caímos nessa conversa... E vamos correndo tirar passaporte... A identidade internacional... Vamos, loucos, conhecer a terceira via em outras nações. E depois as copiamos, ampliando a falsidade da nossa nação.

Como é possível falar em identidade nacional em um país que não é nação? Historicamente, o Brasil o um país que não tem a menor preocupação em construir uma identidade própria. É mais fácil importar. Mais fácil, mais econômico e mais vantajoso... Para quem? Para aqueles que comandam a nação, os mesmos que são comandados por outras nações... Hierarquia da falsa identidade... História da Carochinha... E o boi, agora, é da cara preta.

Os povos que viviam aqui nesse território tinham uma Identidade própria. Vieram os europeus, que também tinham sua Identidade, e destruíram esses povos. Trouxeram os povos africanos para cá. Esses povos também tinham sua identidade. Mas ela ficou na África, foi proibida de embarcar. Perda da identidade. Viagem sem volta. Nessa luta, a própria identidade dos dominadores foi destruída, pelo sol que não respeita a frieza europeia e pela grande extensão territorial, que cansa muito aquele que está acostumado a atravessar seu país de trem, em poucas horas. Todos esses povos se cruzaram, metaforicamente e literalmente. Tiveram filhos. Esses filhos são cidadãos brasileiros.

Vieram vários imigrantes, cada qual com sua identidade. Isso aumentou ainda mais a confusão. Eles vieram atraídos pelo sol, ocuparam a grande extensão territorial e aproveitaram a abundância de coisas aqui oferecidas, pela natureza e pela gentileza submissa. Todos tiveram filhos, que também são cidadãos brasileiros.

Nesse Brasil existem ruivos de olhos puxados, mulatos de olhos verdes e branquelos com nariz de batata. Isso não fica bonito na foto, mas temos que nos identificar. E tome maquiagem (Catherine Hill, Payot), cabeleireiro (escova japonesa, sueca, com hidratação marciana) e banho de loja (calça jeans da Khelf fabricada pela Alpargatas)! Os olhos azuis são lentes de contato (não imediato, porque demora a pagar). Os cabelos lisos somem com a água e o cirurgião plástico fica rico.

O quadro da identidade brasileira é abstrato. Um filme de terror. O pintor é europeu e a produtora é de Hollywood. Nós, espectadores, acreditamos que tudo isso é verdade. Para que essa crença se fortaleça e nós não pensemos no assunto, vale usar qualquer arma. O quadro, o filme... Inclusive a língua... Qual língua? A que está no céu da boca ou a que está no inferno dos livros didáticos?... As duas... Exercícios de dicção... Somos todos stanisiavskianos... Vivemos com condicionais mágicas e perdemos o foco de atenção... Estudamos o nosso idioma e aprendemos outro... Gil Vicente na literatura brasileira... E o machado é inglês...

No Pelourinho, o Olodum canta com Michael Jackson. O evento é transmitido, via satélite, para duzentos e tantos países, pela Globo Internacional (redundância geográfica, midiática). O astro aprende o Português e diz: - Obrigado! A plateia, emocionada e brasileira, responde: - Thank you! Inversão politicamente correta, em todos os sentidos. Araxá e Manhuaçu ficam perto do Capitólio e da Galiléia!

A língua, quando sai do céu da boca, ganha o espaço com as palavras. Sanduíche com suco de graviola. Guaraná com Big Mac. Nós assistimos a filmes nacionais na HBO e conjugamos os verbos da legenda. Eu jogo, você joga, nós joga, eles joga (qualquer semelhança com a conjugação do verbo to play não é mera coincidência!). Vamos dormir contentes, para sermos acordados no dia seguinte pelo ringtone do nosso smartphone. Mas a voz é da Cláudia Leite. Of course!

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