terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Devaneios coloridos obscuros

Gradiente

Provei da lágrima e me assustei com seu sabor franco. A fonte da salmoura em questão é que assombrava. Justamente aquela senhora? Vi sua máscara usualmente desenhada por um sorrir bondoso e aros grossos envolvendo os olhos escorrer e deformar como tinta molhada perante o lar perplexo. Esse, só era capaz de atribuir tal fuga de ritmo à inconstância que a amargura do conhaque trazia aos ébrios.
O ronco de sua garganta entre soluços e papéis encharcados que cobriam suas verdades alarmava o ar da casa, acostumado a conversas casuais dietéticas e insossas. A mulher, a criança, a idosa, todas as facetas daquela mãe se contorciam no resguardar de seus próprios segredos: condenáveis, inaceitáveis  e carrascos de suas noites insones.
A expiração violenta das narinas e o tom hermético de suas negações traziam a certeza do peso dos julgamentos do mundo dos quais sua mente já havia se apropriado. A flor violeta maculada pelos inimagináveis pecados que acreditava mancharem-na deixava de florescer e empalidecia no lilás com branco molhado no qual divagava.
O silêncio tomou a residência e as pessoas foram aos poucos a abandonando, deixando-a só. Uma pipa serpenteava pelo céu pincelado nostalgicamente naquele entardecer. O vento agradava sua cauda submersa naquela corrente que a satisfazia. O sol vermelho tornava-se menos ardido dando espaço para seus tons mais suaves. A senhora alisava o retrato bonito como se seus dedos vencessem a distância e em um átimo ela pudesse ser o estar daquela viajante celeste.
A grossura da corda que a enforcava atenuava-se, pois sua pupila, não mais refletora de um espelho, porém do céu, ninava seus medos em uma cantiga adocicada sussurrada pelo vento. O vislumbre do instante inspirava e tornava ínfimos seus caprichos e dores. Aquietava-se para enxergar o mundo escurecer e no infinito seus segredos não se faziam mais tão obscuros, as lágrimas os curavam assim como a miríade de estrelas curava a solidão celeste.
Deitou. Dormiu e sonhou com uma tela varrida pelo vento. Branca.

Bianca Nuche

Nenhum comentário:

Postar um comentário