domingo, 10 de fevereiro de 2013

Mais devaneios literários...


Imagem e Pulso

A areia movediça. Impulso de enfiar os pés e penetrá-la. Sentir-lhe subindo minhas pernas quando sei que sou eu que desço a sua superfície. Imergir... Deixando-a lamber vagarosamente.
Tornar-me submersa em sua textura molhada, quente. Sem luta, aderir à vontade do corpo estranho meu. Crescer nos olhos as imagens finas, finais, diante do afundamento.
Meus pulsos traçados por delicadas linhas azuladas e arroxeadas. As linhas se exteriorizam e expandem marcando-me com traços profundos. Os traços se encontram e perdem, crianças brincam por minha pele e a fantasiam.
No espaço, o som rítmico. Pedrinhas. Como cascalhos caem, constante corrente. Não há pilha, elas retornam pelo mesmo fluxo de origem. As pedras derramadas são as mesmas que retornam. No mesmo instante. Sempre as mesmas, sempre novas. Continuamente, continuamente...
Estico o pescoço. Enxergo o céu azul concentrado fendado em amarelo juba-de-leão. O céu lápis-lázuli. Os choques entre as cores são delineados pela sombra de um preto arranhado.
Levanto meus dedos azuis e acaricio o amarelo macio e reluzente. É como se todo o corpo, tudo que o toca e tudo que toca tudo se regozijassem em satisfação. O mundo se acaricia e se contenta. O amarelo centeio disperso na luz azul molhada. Minha palma se camufla ao líquido e bóia em seu ventre.
A tranquilidade de algo que parece inevitável. A imersão no fim. O fim se torna amarelo puro e escurecido, um tom mais claro que o marrom cabo de pêra. Violento em sua imposição e tão deliciosamente calmo. Tão desejável e de calor úmido. Penetro e sou penetrada pela areia.
Um vislumbre intensificado. Sons. O cupim que rói a madeira. A garoa fraca. As raízes que absorvem. As folhas que farfalham. Os batimentos. A penetração. Todos são regidos pelo único som audível. As pedras não são mais vistas, o ar esfumaçado em branco cobriu o espaço. Não se sabe se é noite ou dia. O ar frio invade os orifícios que ainda não foram tomados. Os cílios superiores cumprimentam os inferiores e deitam-se em abraço final. A quentura sobe e envolve a face. Não há mais som. As ondas inaudíveis fervem a corrente sanguínea. A energia do mergulho se expande e retrai repetidamente até que fique insuportável. Água e areia colidem.
E o todo se desfaz, agora.

Bianca Nuche

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