domingo, 3 de fevereiro de 2013

Mais um pouco de literatura!


Caça ao desconhecido conhecido.
      
     O centauro sozinho. Menos um no rebanho. A procura, a necessidade da busca incessante por… alguma coisa. O quê? O quê? Mãos tremendo, arco hesitante, a dúvida corrói, complica, destrói. Laços ainda ligam ao rebanho, o que eles querem? E isso importa? Eles já se foram, ficaram em todo lugar e nenhum.
      A flecha é puxada, a pressão, a corda vibra, músculos flexionados. 360º. 360º. 360º. O giro do infinito, da contagem, da confusão. O embaçamento da visão. Tudo se solta e ela dispara rumo ao céu. O alívio, a paz impera por um instante, mas a consciência, ela sabe, tudo volta, ela volta. 
      A angústia, a corrida sem rumo, o espaço limitado, o medo de se tornar seu próprio alvo, o medo da dor. O desejo da apatia, a exaustão do medo. Borrões coloridos. Ninguém se importa, poucos entendem. O desejo de girar pra sempre. O desejo secreto de que alguém o pare. Só mais um pião rodando no liquidificador. Enjôo.
     Tem de fazer isso sozinho. Lembranças claras, escuras, nada disso existe mais. A ameaça do inimigo invisível continua ao redor. O inimigo cai morto e retorcido, ao lado. Golpe de sorte, acaso ou destino? Seja o que for ele recolhe aquele pedaço de si mesmo que já clama por ter novamente objetivo, mesmo que esse seja vazio. A unidade acalma, inquieta, contradiz. 
     O espaço se aclara e os borrões se tornam retas, curvas. As cores perdem a intensidade. Suspiro. O ciclo vai se repetir? Busca incessante… desejo por confiança, a dúvida corrói. O instinto animal somado ao desejo de entendimento, as expectativas temperam a escolha e tudo se junta, se confunde, treme.
     Orifícios absorvem o veneno dos sussurros quase ignorados. O veneno paralisante. A perda de energia. Mas ele não vai parar, estica os braços procurando por… alguém? Não, não. Ninguém do rebanho vai satisfazer a procura. Já havia tentado isso. Já o haviam tentado, cicatrizes provavam. A carne dura, fria e deformada gritava o mesmo.
     Tudo perdia o sentido, o centro, ONDE? O onde que corria as veias, as falhas, as patas, o onde dos calafrios. O onde que como as marés destruía o castelo de areia que tinha de ser reconstruído de novo e de novo. O onde do pânico, da ruptura. Difícil respirar. O arco da obrigação, que leva para longe o objetivo. Largado e pisoteado por merecimento.
     Resta a flecha, a pergunta, o movimento da cabeça para não perder a consciência. Os borrões querem voltar, chantageiam, ameaçam. Uma luz ocorre, talvez não a melhor, certa, porém a última, finalmente a última. Perfura o peito, a prisão, as entranhas, o medo, o coração, a segurança , a confusão, perfura até mesmo a própria dor de não ser. A consciência vaga e se perde.  
     A morte pela mudança. Tudo jorra, escorre sem controle e colore o ambiente. Um novo ser nasce, sem arco, sem flecha, sem consciência, nasce o fenômeno de si mesmo.

Bianca Nuche

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