quinta-feira, 4 de abril de 2013

Sem dor... Sem alegria... Devaneio puro

Longo, branco amarelado pela vida no armário, o vestido esvoaçava. Ela queria que ele fosse animado, rastejasse para debaixo dos pés e a soltasse de seu equilíbrio natural para a queda.

A goiaba no pé, a madeira fina do cabo como única ligação com a árvore. A fragilidade aparente como sustentação. O peso do corpo que já cai, ainda que de pé. A fruta madura sente a pressão do iminente, breve, que pesa sua substância inteira.

A mulher do vestido passado pelo tempo também sente. E teme. E deseja. A vertigem, entregar-se e não ter mais de sustentar a pressão de erguer-se. Amolecer... A ligação se rompe. Ela tomba. Desmorona nos braços do homem que não vê, apenas sente e assume como nova sustentação.

A renda recobre os braços desfalecidos no vestido. Os lábios semiabertos. A beleza acariciada, beijada e adorada pelas mãos frias e olhos que devoram e agem. Linda e imóvel no ruir do peso. Elogiada, desfila seu corpo adormecido, atormentado. A carne começa a se deteriorar no interior da casca adorada, mole e amarga.

A fruta estoura na terra e apodrece.

Bianca Nuche

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