domingo, 14 de julho de 2013

Reflexão crítica?

OS TRÊS PILARES DA RUÍNA CRÍTICA CONTEMPORÂNEA

O mundo contemporâneo globalizado possui um paradoxo fundamental: ao mesmo tempo em que se declara a morte aos padrões de comportamento, defendendo os valores individuais como a única coisa importante a ser conquistada, temos uma massificação cada vez maior do comportamento, transformando todas as pessoas em seres que pensam igualmente, agem igualmente, vivem igualmente, sentem igualmente. As desigualdades ficam no campo das possibilidades. Todos são iguais perante a lei, mas a lei não é igual perante todos. É um quadro catastrófico. Essa ausência de valores traz um vazio, uma lacuna nos ideais humanos que tem duas conseqüências nefastas: primeiramente fica muito fácil para as estruturas do poder manipular as pessoas, uma vez que o espaço vazio das ideologias pode ser preenchido por qualquer conceito de sucesso vendido em propagandas pasteurizadas de felicidade. Além disso, essa lacuna faz com que qualquer coisa seja aceita, em qualquer campo do conhecimento. Inclusive a falta de conhecimento. O que importa um palhaço (desculpem os palhaços, mas é assim que ele é chamado) analfabeto funcional ser um deputado federal? Ele não precisa saber ler e escrever. Ele precisa pensar no povo. Como isso é possível, se a função primeira de um deputado é discutir e elaborar leis? Para isso ele não precisa saber ler e escrever?

Desse espaço de vale tudo em que nos encontramos, obviamente, quase ninguém escapa. Os princípios globalizantes determinam todos os valores. Quem não quiser, fica à margem de tudo. Vencemos o monstro da censura, louvamos a liberdade democrática e agora dormimos com o inimigo, pois temos liberdade para dizer o que quisermos. Só não teremos ouvidos a ouvirem as nossas palavras, se elas estiverem em desacordo com o pensamento globalizado. Quando a censura prendia e torturava os adversários do sistema, a luta era declarada, honesta. As pessoas viam a cara do inimigo. Agora o inimigo vestiu uma máscara de bondade. Não sabemos mais reconhecê-lo e muitas vezes ele está diante do espelho.

Desviei-me do caminho da crítica para pintar um quadro surreal (ou naturalista) do mundo. No entanto, esse quadro pode servir de ponto de partida para uma reflexão sobre a situação da crítica. Como falar em crítica numa sociedade onde não existem valores referenciais? Como falar em crítica num mundo onde tudo vale? Qual seria o papel do crítico numa sociedade onde um apresentador de televisão tem autoridade para chamar alguém de ícone da Arte ou da Ciência?

A crítica contemporânea passa pelo mesmo impasse que os campos de conhecimento onde ela atua. A Arte, atualmente, está confusa. As mídias de massa transformam qualquer um em artista. Qualquer porcaria produzida com o único intuito de enriquecer alguém é vendida como Arte de primeira linha (como se existisse Arte de primeira ou de segunda linha). As pessoas consomem essas obras vendidas pelo marketing cultural e têm a ilusão que conhecem Arte. A Ciência está confusa. Qualquer psicólogo de botequim vai a um programa de televisão e fala sobre comportamento humano, transformando-se em um ícone da ciência comportamental, ditando valores a serem seguidos, valores esses que atendem aos interesses dos próprios programas. As escolas insistem em mostrar a Ciência como um monstro que devemos conhecer, mas do qual não podemos nos aproximar muito, senão seremos devorados. Como estimular qualquer análise crítica nessas condições?

A chamada crítica especializada ainda existe. Nos jornais conseguimos ver o número de estrelas que esses críticos especialistas dão a um filme ou a um espetáculo teatral. No entanto, dificilmente nos guiamos por essas estrelas. Às vezes as pessoas vão assistir a um filme ou a um espetáculo justamente porque a crítica falou mal, pois a crítica está desacreditada. Agora reflexões sérias sobre esses mesmos filmes ou espetáculos não existem mais. Melhor dizendo, ficam restritas a publicações especializadas que atendem a um público muito restrito e que, geralmente, têm um alto custo. O resto são páginas e páginas de publicidade, pois o que importa é vender. Vender a revista, o produto anunciado na revista, o filme que o crítico da revista comenta, a alma dos artistas do filme, do crítico e da revista.

Um cientista faz uma descoberta maravilhosa, que pode auxiliar no tratamento de doenças. Produtos são criados para aumentar a produtividade das plantações. As safras são recordes. O cientista é criticado, elogiado, comentado nos programas de televisão. Afinal de contas, sua descoberta pode ajudar muitas pessoas. As instituições governamentais financiam a pesquisa desse cientista e o meio acadêmico o coloca no pedestal dos gênios. Entretanto, as pessoas passam fome e morrem em filas de hospitais públicos. E nem o cientista, nem o crítico e, muito menos as instituições governamentais fazem algo para que a descoberta transforme-se em algo efetivamente eficiente para todas as pessoas. O que importa são os prêmios e as verbas.

Além de tudo o que já foi colocado, é importante ressaltar o papel cada vez mais subjetivo da crítica contemporânea, o que revela mais uma vez o paradoxo perverso do mundo globalizado. O crítico acaba sempre falando sobre algo que gosta ou que não gosta. E, para ganhar credibilidade, utiliza-se dos espaços midiáticos à sua disposição, geralmente colocados à sua disposição desde que ele tenha uma postura que passe algo politicamente correto, mesmo que esse politicamente correto esteja incorreto. Critica-se um artista por ter usado urubus em uma de suas obras. Abaixo assinados são feitos. Notícias em jornais e revistas. Blogs comentam o absurdo, dizendo que o artista é arrogante por achar que em Arte vale tudo. Pobres dos urubus! O IBAMA intervém, em nome dos direitos dos animais. Os urubus são retirados. Todos ficam felizes e vão a Barretos ver os rodeios. Afinal de contas, as duplas sertanejas precisam de espaço e público. Os programas de televisão precisam ter atrações para garantir a audiência. As novelas precisam de personagens com forte apelo popular. Um artista é criticado por retratar-se matando o presidente com uma faca. A OAB fala em apologia ao crime. Mais abaixo assinados. O presidente, com uma caneta, assina uma medida provisória que provavelmente ajudará a matar de fome milhares de pessoas. E ele ainda consegue eleger a primeira mulher-robô-personagem da história como sua sucessora. E a crítica colabora com tudo isso.

Não existe crítica séria? Obviamente existe.
Não existe crítica honesta? Logicamente existe.
Não existe crítica isenta? Mais uma vez, existe.

O que talvez esteja mais difícil de existir é uma crítica que seja, ao mesmo tempo, séria, honesta e isenta. Porque aí o que não vai existir é o espaço para que essa crítica possa ser divulgada, pois os espaços de divulgação não são, em sua maioria esmagadora, nem sérios, nem honestos e muito menos isentos.

Roman Lopes

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