sábado, 28 de dezembro de 2013

Pequeno devaneio literário?

A leitura escapa em feixes de concentração lesada. Preto, branco, preto, branco. Minha concentração listrada bagunça e isola de luz determinadas letras, linhas. Terminei o parágrafo e terei de retornar, parece que nem li. Depois eu vejo... A fadiga carrega nos membros a ausência de movimento e foco. Assim como nos olhos. Fito sem ver. Quanto disso vai para o inconsciente construir o onírico tardio? Parece que fui surrada ou que passei a noite inteira soluçando água. É como se algo horrível tivesse se dado... Mas o aroma de ferro só ficou em mim.

Bianca Nuche

domingo, 15 de dezembro de 2013

Ensaios de uma busca - parte 12

Antes tarde do que nunca... O texto abaixo é um reflexão feita pela Jéssica em um dos nossos ensaios... Já perdido no tempo... Mas como as reflexões permanecem, vale a pena dividi-lo com todos...

RETROCESSO

A atualidade vivida no campo artístico em geral tornou-se algo copiado e superficial, não há mais a pulsão, a entrega ou a perda da consciência na tentativa de adquirir a mesma. Com isso, e devido a isso, o processo torna-se praticamente imutável. Pensando em Nietzsche, acho um ator da antiga tragédia grega reconheceria nossos grandes poetas como verdadeiras estátuas. Isso porque essa camada superficial não permite que haja a real entrega, a perda do ser e o encontro com o personagem.
O coro representava a alma do teatro grego, mas isso só pode ser entendido como algo mais amplo e profundo, algo que não cabe mais no teatro atual, tampouco na tragédia representada na Grécia, pois a essência foi perdida, seja por deformidades causadas pelo tempo ou por vestígios socráticos.
O teatro não será o mesmo até que haja a desconscientização e a entrega de todos os meios artísticos envolvidos. Para que haja evolução, será preciso o retrocesso.

Jéssica Leandro

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Devaneio urbano...

OBSTRUÇÃO

O transporte treme e respiro sua fumaça, sinto sua vibração enganchando-se em meus nervos e pesando meus ombros, tensão. Ouço a música da rua, a orquestra de luzes vermelhas e amarelas, de buzinas e de todo o cheiro que me deixa sem ar. A propaganda da cola no veículo à frente é também vermelha e amarela, assim como o restaurante que passa. Imagino meus pulmões se enchendo de gasoso negro e emitindo o som de asas que morrem. Não é possível que isso seja só mais um dia normal. As filas estão todas cheias desses insetos que as respeitam vagarosamente. Em sua obediência e integração a elas todos ficam com as costas tão enganchadas que são puxados até o chão, até deitarem e se tornarem um monte de pó dentro de mais uma caixa semelhante aos seus insetos com lanternas. Ou até que suas asas petrifiquem. O congestionamento impede todas as vias. O trânsito se faz lento até que o pulsar interno fique tão pressionado que imploda o ser. Os carros enfartam a rodovia. O asfalto pesa doente de tensão. O espaço treme com a sinfonia humana. Quero vomitar e chorar para ver se encontro espaço. Se expulso tudo isso de dentro. Para variar tudo se faz em primeira pessoa, mas até o resto das pessoas me parece ser colaborador e causador da falta de espaço que sinto. Passam também como os motores e a dualidade tonal. Presentes nos lugares como vítimas. Patrocinando a continuidade aguda com sua quietude. Mas o que gritar se a garganta sufoca tudo até em mim? Não é uma busca por culpa, mas por um fim. Enjoo. O relógio re-re-revisitado. O tempo parece mais importante quando está sufocado no espaço e velocidade. Começo a tossir. Forço a tosse e acabo expelindo pela boca gasolina. Meus olhos estão vermelhos e minha pele cinza. Meus órgãos começam a vazar para os poros minha verdadeira aparência. Medíocre. É assim que eu me encaixo nas linhas retas que criamos. Meu rosto pipoca pontos pretos e se eu vomitar vai ser ácido vermelho e amarelo. Meus ouvidos nem sequer escutam mais qualquer coisa que não seja o enfarte do mundo. O rio espumando lixo acompanha minha trajetória. Será que se eu chorar ainda serão lágrimas? Ou meu choro vai ser também feito do esgoto, da merda e da deterioração de todos? 4% da bateria. A lentidão me agarra e abaixa e eu quero esquecer tudo. Ainda vai demorar para que eu saia daqui. 2%. Me vem à mente todos os buracos e vias do meu corpo parados e secos e não me sinto natural. Um animal maquinizado e maquinizador. Ritmificando o mundo em sons tonais e vagarosos. O motor apita a pressão. Chato, triste, estridente. 1%. Meu corpo paralisado e desconsiderado como se nem existisse. Minha consciência domina tudo e as pessoas começam a reclamar. Reclamam do dia da semana apenas. Segunda ira. Segunda feira. Tem um alarme apitando… Mas é só mais um início de s


Bianca Nuche