terça-feira, 5 de março de 2013

Uma Alice imaginária...

Fui assistir ao espetáculo UMA ALICE IMAGINÁRIA, apresentado pela Cia. dos Imaginários e não poderia deixar de escrever alguma coisa...


UMA ALICE IMAGINÁRIA, UMA BATALHA REAL

Sinais sonoros e somos engolidos pelo escuro... Silêncio... Luzes piscando e uma criança brincando... Sons estranhos nos remetem ao passado... Somos levados a um ambiente seco, que lembra muito as estranhas salas dos tribunais kafkianos... Pessoas grotescas e brutas falam sem parar, gritando números sem sentido e palavras de ordem lançadas no vazio... Tudo muito rude e violento...
Mas tem uma criança brincando...
Das caixas neutras que habitam a secura do lugar começam a sair objetos que transformam as pessoas brutas em seres mágicos... Mas elas continuam grotescas...
E a criança continua brincando...
As lembranças saltam continuamente das caixas, colorindo o ambiente com a infância distante... A criança que brincava começa uma jornada a um mundo mágico, que ela não lembra, não sabe se conhece... As criaturas magicamente transformadas alternam depressões, iras, desesperos e alucinações... A criança não entende nada e quer ir para algum lugar, quer seguir por algum caminho... “Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho é válido”...
Sorrisos travessos-maléficos lampejam pegadas dos caminhos não percorridos, mas sofridos... E a criança vai, aos poucos, nos mostrando o quanto os sonhos podem ser assustadoramente doces...
Onde estamos? Nos porões do castelo do ressuscitado agrimensor? Ou no limbo espiralado beckettiano?... Será que importa onde estamos?...
Alice se perde nos turbilhões de uma luta ingrata e nós somos levados com ela... Estamos perdidos... A infância nos é arrancada, não temos escolha... Tudo se transforma em caixas secas no sótão das lembranças fugidias... Quem morreu?... A rainha?... A infância?... Ou a própria energia da vida?
Alice não está mais entre nós... É apenas uma projeção de um fio de memória frágil... Ela seguiu o seu caminho, o nosso caminho... E nós não tivemos a capacidade de acompanhá-la...
A luz acende, a escuridão se esvai diante de todos nós... Ela vai habitar o fundo da nossa alma... Alice vai junto, dividida em pequenos pedaços de nostalgia angustiada... Nunca mais seremos os mesmos...
Só nos resta tomar um chá alucinógeno com Lewis Carrol e fingir que tudo está no seu devido lugar...

Roman Lopes

Para quem quiser conferir o espetáculo, o próximo final de semana será o último...
Não percam a chance!

Uma Alice Imaginária
Teatro Cacilda Becker
Rua Tito, 295 - Lapa
Tel.: (11) 3864-4513
Sexta e sábado, às 21h; domingo às 19h
Espetáculo livre
Em cartaz até 10/3/2013
Ingressos: R$ 10,00