sábado, 9 de março de 2013

Pequeno devaneio dolorido

VIOLETAS
O corpo. A carne recipiente? O lacre já se desfez e ela permanece aberta... 
Exposta. Somos por ele violadas e o deslizar evoca dor e prazer velados. Ela também me viola, aborta lágrimas dos meus olhos... Pergunto-me quem chora, se é plural ou singular. Confusa e angustiada sinto-me recipiente dos dois, das palavras da outra que tem minha voz, da ambiguidade. Enxergo-me dócil, guardando qualquer ira impalpável interior por ser vaso, terra fértil...
Recuso essas flores. Mas por quem foram entregues? 
Meus olhos selados trancaram também minha reação. Então isso era doar? Adentrada, a erupção me soava dúbia... Essa havia sido minha escolha... Dar presença a outros. Mas o que sinto? Aquilo soava revoltante, ser corpo... 
Será que a terra dói quando as flores lhe são arrancadas? 

Bianca Nuche

Versos duros

MANIFESTO DO ARTISTA CORROMPIDO
Sou artista? De qual arte?
Quais as preocupações que povoam a minha mente?
Questões sem reposta
Ou respostas que eu não queria ter
Para não precisar assumir a minha real condição.
Não faço arte!
Faço parte de jogos de sobrevivência.
Minhas preocupações são contratos, salários e contas
A receber, a pagar e a apagar.
Não lido com idéias, com imaginação,
Lido com papéis e relatórios.
Virei um burocrata perdido no meio do vazio.
Minha arte está à mercê das alianças dos donos da minha virtude.
Paradoxo do artista falido.
Sou respeitado, sou admirado, sou temido,
Fodido e bem pago.
E tudo isso para quê?
Para sustentar a vaidade dos meus semelhantes.
Para fortalecer a roda da fortuna, iludindo aqueles que estão fora dela
E tornando mais poderosos aqueles que a movimentam.
A minha arte, que já deixou de ser arte há algum tempo,
Está na corrente do senso comum.
Está servindo a sua pureza essencial em uma bandeja de ouro,
No banquete dos antropófagos,
Que se alimentam da força vital do homem,
Vomitando excrementos de sucesso e solidariedade.
Podem me dizer que minha arte serve para ver crianças sorrindo,
Mas eu não quero crianças sorrindo, quero crianças felizes.
E entre essas duas coisas existe um oceano
De jogatinas políticas e desvios educacionais.
A arte grita para mim, querendo ser verdadeira.
Eu ouço seu grito e quero gritar também.
Quero pular do alto das plataformas de petróleo
E voar no meio das nuvens cinzentas
Para esculpir raios e cantar trovões.
Quero atingir o sol e queimar o seu calor com a minha paixão.
Quero perfurar a atmosfera como um meteoro enlouquecido
E mergulhar em um rio poluído,
Para fazer parte da verdadeira merda da vida.
Porque, nessa minha arte atual,
Até a merda que me dão é falsa.

Roman Lopes