sexta-feira, 26 de abril de 2013

Canto do silêncio... Versos gritados...

CANTO DO POVO DE LUGAR ALGUM

O homem vivia sentado na caverna,
Com uma fogueira às suas costas,
Vendo sombras projetadas na parede.
Um dia, o homem levantou,
Deu as costas para as sombras
E viu a realidade.
E ele sentiu medo,
E criou Deus.
Aí ele adorou Deus,
E teve medo de Deus,
E pediu para Deus lhe dar a vida.
Mas Deus só lhe deu a imperfeição...

O perfume está na flor,
A beleza está no sorriso da criança
E Deus não está em nenhum lugar,
Pois se estivesse,
O sorriso não se apagaria
E a criança não se transformaria
No malabarista da mentira,
Andando na corda bamba
Das esquinas da miséria,
Vivendo o filme-ilusão
De que para ter sucesso, basta ter vontade.
E a criança fica só na vontade...

Mas por que eu estou dizendo isso?
Qual a relação da criança com a sombra na caverna?
Talvez eu tenha me perdido no meio do caminho,
Porque no meio do caminho tinha uma pedra,
Como dizia o poeta...
Mas, querido poeta, a pedra é muito maior
Do que você imaginou.
A pedra é, na verdade, uma montanha
De lixo-dinheiro
Que esmaga nossa pureza
E nos transforma em almas penadas,
Vagando na bruma podre,
À procura do túmulo-trono,
Onde nos sentamos
Para sentir o falso prazer do poder...

Por que será que Platão, ou Sócrates, ou Aristóteles,
Ou seja lá que raio de grego que disse isso,
Achava que deixar as sombras
E ter contato com a realidade
Era conhecer a verdade?

Estamos tão longe dela,
Tão próximos das crianças-malabaristas
E tão distante do perfume das flores.
Estamos tão próximos dos túmulos
E tão distante dos sorrisos...

A única coisa que eu quero
É que um dia tenhamos coragem
De virar as costas para o Deus-realidade
E que possamos contemplar as sombras que existem
Na luz do fim do túnel.

Roman Lopes