sexta-feira, 10 de maio de 2013

Devaneio pedagógico

ACORDA, ONÇA!

Os alunos de uma sala de aula não formam um grupo homogêneo, apesar de a estrutura escolar tentar provar o contrário. Muitos indivíduos diferentes habitam esse mesmo espaço (no caso das escolas públicas, muitos mesmo). Mesmo com idades próximas e condições sociais semelhantes (será mesmo?), os alunos de uma sala de aula são indivíduos diferenciados. Portanto, parece ilógico falar em homogeneidade nessa situação. 

A situação acima exposta é importante para iniciar uma reflexão sobre o trabalho com variação linguística em sala de aula. A simples impossibilidade de existência de uma verdadeira homogeneidade em sala de aula já seria suficiente para justificar o trabalho com a variação linguística, uma vez que somente assim o professor contemplaria a variedade de pensamentos e formas de expressão que esse grupo heterogêneo criaria. Portanto, essa missiva poderia ser encerrada agora, pois qualquer colocação feita a partir desse momento representará uma redundância, uma vez que a importância do estudo da variação linguística já está mais do que provada. Porém, como esse humilde missivista adora, como diz o ditado, “cutucar onça com vara curta”, vamos continuar... 

A Sociolinguística Variacionista, iniciada por Labov coloca que a língua não pode ser desligada da sociedade na qual está inserida e que, por isso, para estudar essa língua, é necessário também que essa sociedade seja estudada, para que possam ser estabelecidas todas as influências sociais na língua e vice-versa. Além disso, ela também coloca que as mudanças ocorridas na língua no decorrer do tempo são influenciadas por fatores sociais e ocorrem de maneira gradual. Por isso, o estudo de qualquer língua deve estar relacionado a um estudo profundo e sistemático da comunidade linguística a qual essa língua pertence, sendo esse estudo capaz de contemplar todas as variações que podem ocorrer dentro dessa comunidade, por mais difícil que isso possa parecer. 

Essa é a nossa realidade? Infelizmente não! Por mais repetitivo que pareça, é necessário insistir que o estudo de línguas na sala de aula está muito distante de uma situação satisfatória. O simples fato de os alunos serem tratados como iguais mostra a incoerência existente. Cada aluno tem uma história de vida diferente, o que representa uma forma de expressão diferente também. O professor deveria aproveitar essa diversidade como uma fonte riquíssima de material de aula. Utilizar textos dos alunos como material para o ensino da língua, deixando de lado os livros didáticos que não servem para absolutamente nada. Utilizar outros textos pesquisados pelos alunos, retirados de livros, peças publicitárias, jornais, televisão. Pedir aos alunos que entrevistem pessoas na rua, em casa. Interagir com outras comunidades linguísticas para entender as diferenças. Tudo isso proporcionará um estudo rico e fundamental para o conhecimento da língua e sua inserção na sociedade, contemplando verdadeiramente a variação linguística existente e por existir... Mas será que isso é suficiente? Talvez não! Por isso, cabe ao professor preparar-se para mais. Não existe fórmula! O importante é o professor saber aonde quer chegar e criar o ambiente necessário para atingir seus objetivos. Ser criativo, não agir de forma autoritária, inventar sempre coisas novas, buscar materiais diferenciados, sempre retirados do cotidiano do aluno. E, acima de tudo, entender de uma vez por todas que a chamada norma culta é simplesmente mais uma forma de utilização da linguagem, mas que não é a mais correta e nem a mais importante. Somente assim o estudo de línguas na sala de aula pode utilizar realmente os princípios da Sociolinguística Variacionista e toda a sua riqueza teórica no que diz respeito à variação linguística. 

O maior problema é que esse parece um caminho distante. Os professores, em sua maioria, sequer pensam na variação linguística, reproduzindo a ideia incoerente e ultrapassada de que existe uma norma a ser obedecida no uso da língua, distanciando a mesma do aluno, impedindo-o de se reconhecer como ser produtor de linguagem. O resultado disso é o que qualquer pessoa que vive no ambiente escolar já sabe: os alunos não gostam de estudar línguas, pois não percebem o sentido de saber as regras impostas por essa norma. Os alunos ficam cada vez mais distantes, pois para eles existem duas línguas, a dele mesmo e a que é ensinada na escola, que não tem nenhuma relação com ele. Quando esse absurdo vai acabar? A resposta é simples: quando os professores estiverem preparados para aquilo que deveria ser natural no exercício de sua função, qual seja, criar as condições reais de aprendizado para todos os seus alunos... Algumas indicações já foram dadas. Muitas outras podem ser criadas. Basta um pouco de competência e boa vontade... 

Sabe o que é pior? As onças estão sendo cutucadas e não esboçam nenhuma reação. Continuam dormindo em suas jaulas de zoológico, esperando apenas pelo alimento, como se isso fosse o bastante para que elas sejam felizes. Como seria bom se elas atacassem!

Roman Lopes